terça-feira, 1 de maio de 2007

Para a minha única e "verdadeira" madrinha!

Só tive até hoje uma madrinha na vida, de baptismo e de casamento - foi a mesma, a minha tia-avó Lourdes! Que tantas vezes, especialmente após a morte da irmã (a minha avó materna), foi mãe, minha e da minha mãe!



Foi enquanto eu crescia um, aliás, o meu exemplo vivo de força, coragem e determinação, de calma e racionalidade. Alguém a quem sempre recorri desde muito pequena, com quem conversei daquelas conversas sérias sobre a nossa vida, das que nos fazem chegar às conclusões onde precisamos chegar!

Lembro-me do meu choque quando soube (ainda menina com os meus 6 ou 7 anitos) que ela tinha mais afilhados, não era só minha madrinha. Prontamente lhe perguntei "mas 'dinha eu sou a tua afilhada verdadeira, não sou?"... pois os outros para mim só poderiam ser afilhados do tipo "mentiroso" e já eram assim crescidos e tudo, já não precisavam dela como eu! Desde então que a oiço sempre brincar comigo a dizer-me que sim sou a "verdadeira" dela. E sei que sim, que fui até de certa forma a filha que nunca teve... e que em certos momentos ela foi a mãe que a minha mãe não conseguiu ser, sem demérito para a minha mãe!

Desde há pouco mais de 5 anos que a minha madrinha sofre de duas das mais horríveis, debilitantes, incomensuravelmente dolorosas para pacientes e respectivas famílias e muito mais que não consigo transpôr para palavras... doenças neurológicas: Alzheimer e Parkinson. Sim ambas, em simultâneo! Quando me casei (há cinco anos atrás) estavam a surgir os primeiros e aterradores sintomas.

Actualmente quem foi um dia uma mulher de armas - que ficou viúva aos 20 anos e que desde então se soube valer a si mesma, muitas vezes sózinha e numa terra distante da sua - vive em casa da sobrinha (a minha mãe) sem se poder valer a si própria para as tarefas mais mundanas, mais básicas da natureza humana. Quase não fála, não consegue dizer o que quer e é tão notório o seu sofrimento por isso.

Não tenho como dizer-vos o quão difícil tem sido, para mim e para a minha mãe que tanta força a ela fomos buscar vê-la assim sem força, sem ânimo... quase que já fora deste mundo!

A minha 'dinha verdadeira foi internada ontem, com um quadro de possível infecção respiratória nada promissor para alguém da sua idade e estado de saúde! Nem sei o que pensar... custa tanto vê-la como ela tem andado nestes últimos anos, a piorar tanto, a sofrer tanto psicologica e fisicamente que penso talvez até se sinta um pouco feliz ao eventualmente aperceber-se que será quem sabe por pouco tempo mais... não quero ser egoísta mas que falta me faz, a minha 'dinha de antes, a minha conselheira e amiga, como gostava que pudesse voltar a ser quem era, ou melhor a viver a vida como ela a vivia, com alegria, com força, com a lucidez que trazem muitos anos de luta contra a vida madrásta!

Mas não podendo ser isto verdade, que motivos tenho para querer que continue a sofrer vivendo assim, despojada de si própria? Nenhuns! Porque fico triste então? Porque me assusto? Não sei... é tarde não consigo pensar com clareza - não choro, não chorei ainda. Quando a minha avó nos deixou só chorei uma semana depois... ainda me lembro e era miúda!

Amanhã vamos vê-la ao hospital, talvez nem se aperceba de que lá estamos ou mesmo quem somos, mas vou na mesma! Para vê-la, para abraçar a minha mãe que deve sentir-se no mínimo como eu me sinto agora!

Minha 'dinha linda! Não me esqueço de ti, como eras, como és agora e continuo a orgulhar-me da tua força que tanto quis sempre imitar, que agora que falta porque a doença ta levou!

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