Lidar com a violência
No seguimento de um post da Margarida, dei por mim a pensar num assunto que me preocupa, tanto como mãe como como ser humano.
A forma como lidamos com a violência, em especial a que nos é dirigida é, quanto a mim, o melhor indicador do quanto crescemos como pessoas. Resolver rapida, eficaz e de uma forma justa uma situação de violência é uma habilidade essencial numa sociedade onde por vezes ela é tão constante.
Quanto a mim saber lidar com a violência pode dividir-se em saber aplicar dois conceitos essenciais:
1. Reagir apenas quando necessário;
2. Reponder apenas em defesa própria e com uma força adequada à força utilizada por quem nos ataca.
1. Reagir apenas quando necessário.
Aqui podemos enunciar dois sub-princípios:
1.1 Nunca entrar num confronto do qual nunca poderemos sair a ganhar.
Não vale a pena esforçarmo-nos para ficar na mesma ou pior. Uma batalha evitada é uma batalha ganha!
1.2 A reacção quando necessária deverá ser o menos esgotante possível do nossos recursos. Um antigo sábio chinês Sun Tzu, que escreveu "A Arte da Guerra" disse que "lutar e vencer todas as batalhas não constitui excelência suprema, a excelência suprema consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar."
2. Defesa legítima com força legítima
Em caso de agressão é importante sabermos defender-nos, mas o mais complicado é determinar com que força é legítimo responder a um ataque e evitar que o calor do momento nos leve a utilizar mais força do que a necessária para fazer cessar a violência de que fomos alvo.
Por exemplo, se nos derem um estálo na cára não é lícito responder com uma facada, se nos ofenderem não é aceitável que dêmos um tiro a quem nos ofendeu, estes exemplos são fáceis de entender mas na vida real a linha é bem mais ténue e complicada de achar.
O ideal é que a noção que "os erros dos outros nunca justificam os nossos" nos seja tão clara como o ser necessário e legítimo agirmos em nossa defesa.
Isto é "eu não estou a bater porque me bateram, eu estou a defender-me para que não me voltem a bater", é apenas neste contexto que uma resposta violenta é válida, como defesa e em último recurso.
Para além disso é também importante saber prevenir a violência e evitá-la. Resistir não violentamente pode ser muito eficaz, como nos provou Gandhi. Responder não violentamente à violência é como deitar um balde de água na fogueira, responder-lhe com mais violência é apenas deitar mais achas na dita.
Nisto tudo há que exercitar a cabeça num constante pesar de prós e contras, num manter da racionalidade por vezes tão difícil nos tempos que correm e saber escolher o melhor caminho para a resolução dos conflitos que não se podem evitar.
Saber lidar correctamente com a violência, saber valorar justa e eticamente as posições que tomamos e as dos outros é um processo de aprendizagem que começamos desde que nascemos.
Não subscrevo a teoria do "bom selvagem", pessoalmente acho que há desde o primeiro momento algo em nós que nos incita a sobreviver a todo o custo. É um instinto animal, amoral, que coloca acima de tudo a nossa própria existência e bem estar.
À medida que vamos crescendo interiormente, vamos aprendendo a aceitar esse instinto e a saber controlá-lo porque se torna cada vez mais claro que o nosso bem estar, a nossa sobrevivência e no fundo a nossa felicidade apenas são alcançáveis em sociedade e aqui importa, e muito, que haja justiça e que todos possam de forma igual garantir a sua própria felicidade. Isto porque em sociedade o meu bem-estar não está acima do de mais ninguém, nem abaixo!
Ao compreender isto, parece-me fácil perceber porque têm as crianças por vezes reacções ou acções tão violentas. O que tradicionalmente nos choca por termos sucumbido ao estigma da criança "inocente e boazinha".
Há que entender que a criança apenas está a expressar as suas necessidades de garantir aquilo que ela vê como necessário para a sua felicidade e e bem estar. E que nem sempre tem, porque tem de aprendê-los, mecanismos não violentos de fazer valer a sua pretensão.
A frase "Quero este brinquedo porque gosto dele e ele é importante para mim, por isso se mo tentares tirar bato-te!" é perfeitamente lícita aos olhos de uma criança, mas é preciso ensiná-la que a sua relação com os outros é mais importante que a sua relação com o brinquedo e como tal deve controlar o instinto de não partilhar o brinquedo e aprender a substituí-lo pelo prazer de ter companhia nas suas brincadeiras.
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