Dia do Pai - um texto
Fundação do pai por José Nêumanne
Desembarquei na vida a bordo de teu corpo. Em algum lugar incerto do passado mais remoto, antes de ser este pedaço de carne inquieto e buliçoso, intranquilo e belicoso, fui um naco de algum sonho teu. Eras meu elo com o passado, o cordão umbilical que me ligava às origens do planeta e das estrelas.
Perdi a memória ainda no útero de tua amada, pai. Não me lembro mais das priscas eras em que navegava em teus neurónios. Nem sei das vezes sem conta em que fui engendrado na cerveja que bebias e fui expelido no trovão de teus arrotos e reincorporado a ti no ar fresco da manhã, que sorvias. Ah, eu não me lembro mais, mas sei que estava lá. Antes de estar contido na gosma que expeliste num espasmo de amor sem fim e de prazer sem início, eu era um tique teu, um tico teu, um taco teu, existindo plenamente na minha inexistência. Sim, inexistente ainda, eu existia em ti, era teus planos, cometi teus enganos, me dissolvi em teu pranto, me perdi em teus passos.
(...)
Achei piada a este texto porque estamos, penso eu, todos mais acostumados a ler estes discursos mais "viscerais" referidos às mães.
Gostei de o ler! Não sei por que razão, talvez apenas o facto do feto não ter sido forjado nas entranhas masculinas torna aos olhos do mundo menos "carnal" a relação pai-filho do que a mãe-filho.
Mas a mim basta-me vê-los para saber que os meus filhos foram sim engendrados nos neurónios do seu pai, e estavam lá antes, bem antes de existirem nas minhas entranhas! Eu sei que sim porque os vi lá tantas vezes a brilhar, a rir e a brincar nos olhos castanhos do meu amor!
Parabéns papá dos meus bebés! Feliz dia do Pai!

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