sábado, 3 de março de 2007

"E é por amar a liberdade"...

... que quero que os meus filhos a saibam amar e proteger também!

Nasci dois anos depois da revolução que acabou com o Estado Novo. Nunca tive a vida ou a integridade física em risco pelo simples facto de dizer o que me vai na cabeça, coisa que faço incessantemente! Mas quando andava na faculdade passava todos os dias por um memorial com as fotos de dois estudantes assassinados e ouvia baixinho a sua queixa "nem sabes o valor que tem a tua liberdade!". E não deixa de ser verdade, não o sabia, nem o sei bem ainda. Só sabe o verdadeiro valor da liberdade quem se viu ou vê privado dela.

Não sou socialista, nem comunista, nem liberalista, não há -ista em que eu me reveja, mas há coisas que me fazem ferver o sangue. Coisas que quero que os meus filhos saibam avaliar quando tiverem idade para isso.

Querem fazer uma casa-museu com o espólio de Salazar, para recordar o homem. Talvez nem tudo no regime tenha sido mau, sim - a época, o regime e o homem merecem estudo sério. Afinal "A sociedade que se esquece da sua história está condenada a revivê-la!".

Mas não se deve confundir estudo e análise com saudosismos menos esclarecidos e saneamento das partes menos bonitas da história. Afinal Salazar era um homem do seu tempo, alguém que considerava estar a fazer o melhor que podia e sabia para o bem da Pátria, não era nenhum demónio - mas fez escolhas terríveis. Escolheu matar a Liberdade - a bem da Nação, e torturar, oprimir e matar também os que não concordaram com essa escolha!

Querem fazer um museu, façam-no - mas escrevam a letras grossas à entrada: "Aqui nasceu e viveu o homem que quis matar a Liberdade e que mandou matar e calar muitos outros que a tentaram defender!" E, se o homem tinha boas intenções, devem ser aquelas que, como o ditado diz, são as que enchem o inferno!

Por isso hoje depois do jantar na hora de brincar vou pegar na guitarra de que tanto gostam os meus filhotes e mesmo sem que percebam cantar-lhes-ei:

Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
[...]

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.
[...]

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
[...]

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

Porque sei que os meus filhos um dia perceberão, um dia amarão, um dia cantarão a liberdade!

Bom fim de semana!

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