Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem
O mundo nao conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!
Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
A rutilante luz dum impossível!
Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!
Florbela Espanca
Niguém descreveu ainda, que eu lesse, melhor que isto a sublime tortura de ser mulher!
Sentir o sofrido orgulho de ter braços onde realmente cabe a dor do mundo!
Divinos braços onde cabe ainda todo o amor, toda felicidade de um abraço de um filho! Corpo onde coube todo um outro ser! Ventre que se encheu de amor, se esvaíu em dor e que se volta às vezes a encher de medo.
Aquele medo que sentímos no fundo do estomago quando nos vemos assim vazias, no momento em que demos ao mundo o que de nós brotou! No fatídico segundo em que nos apercebemos:
que será o mundo, mais que nós próprias, quem fará dele o que entender;
que nunca nos coube a nós mas sim aos Fados fazê-lo crescer;
que fomos pincel e não pintor;
que o verdadeiro Autor esse nunca vêmos mas foi quem nos escreveu, quem escreve ainda em nós!
Saber ser assim, saber achar a esperança no impossível, saber encontrar a alegria no mais escuro dos desesperos, é ser o que somos, saber amar o mal da vida, juntamente com o seu bem é ser-se mulher, mãe, divina!
Hoje estou assim meio dorida, meio perdida de mim! Mas abracei esta núvem que veio hoje entoldar-me o Sol e enublar-me a visão. Porque me aproximo dos outros ao perder-me de mim! Porque amanhã quando voltar a subir mais alto, à minha Torre de Marfim do espaço levo mais comigo do que apenas o que sou, levo-vos a todos os que me magoaram, ou cuja dor me tocou, a todos os que me lavaram as chagas ou sobre elas derramaram sal! Amanhã subo e volto a ser a Intangível, até de novo sonhar o meu próprio desdém!
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem
O mundo nao conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!
Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
A rutilante luz dum impossível!
Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!
Sem comentários:
Enviar um comentário